Sangria



Poema da Filha
Liberdade
Amizade Dolorida
      
Cauterizando

    Sim. Glória H. mexe com as feridas abertas da classe média carioca; mais precisamente da mulher classe média.
    A média de vida, os temas médios: amor, morte, mulher descasada, mãe, casamento, Búzios, vai do cheiro da gasolina aos eflúvios da mente, menstruação e esperma.
    E, por isto mesmo, um leitor desavisado pode confundir o médio com mesmice, pensar que os assuntos estão batidos e que sua poesia é lugar comum. Ledo engano.
    Com uma seleção vocabular apurada e manipulando a palavra certa, ela arma um dramático móbile poético. Com tiras de realidade e pedaços de absurdo, constrói um painel agudo e doído da nossa média existência.
    Emociona.
    Emociona e faz doer; muito.
    Glória H. amplia, vasculha feridas que atropelam nosso dia-a-dia e, como quem termina um ato cirúrgico, cauteriza. Sempre com poesia, mas sem anestesia.

Doc Comparato
abril-94
 

















Poema da Filha


Minha filha, eu quero ser um bom exemplo.
Nunca de perfeição, nem de coerência.
Nunca de bom comportamento e normalidade,
mas de originalidade e amor.
Você, e só você,
poderá gerar todas as minhas sementes.
Fazer brotar a nosso redor,
até onde a vista alcança,
vestígios de um mundo melhor.
Quero te ensinar a amar a liberdade.
A arrancar a felicidade possível
que existe por trás das cortinas e dos padrões.
Minha filha, eu quero ser um bom exemplo
e só tem um jeito: eu ser feliz.

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Liberdade


Que pena eu ter meu caminho
como um rio que corre sem misturar-se
como uma nuvem que passa sozinha
como uma estrada que segue sem bifurcar-se.

Que pena eu ser assim: sem afluentes.
Sem parcerias. Sem dono. Sem encruzilhada.   E ter a cara inteira, não metade.  Que pena eu ser total, não ter um trevo; uma esquina
Uma paralela, uma brecha.
Um espaço em mim, que pena eu ser assim: com divisas.
que pena eu ser assim: um sem outro.
Como um único sole uma só lua.
E não como as meias: aos pares.


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AMIZADE DOLORIDA
COMO SE COMPORTAR NA MODERNINADE
ou
MANUAL DE INSTRUÇÕES DA AMIZADE DOLORIDA



Decifre ou devore:
Se te oferecer uma carona, é porque não vai te levar pra casa. Se você estiver disponível, sorria. Se não estiver a fim, dispense a transa, quer dizer, a carona. Se vocês se encontrarem num bar e transarem depois, que ótimo! Aproveite! Na hora agá pode dizer o que quiser: que é o máximo, uma delícia, que estava morrendo de saudades, etc, etc. Não se preocupe porque no famoso dia seguinte será como se nada tivesse acontecido. Converse amenidades, não faça pergunta muito pessoais, aproveite o momento e não espalhe!
Mas tome cuidado! Se você começar a pensar em alguém de véspera, e se o seu coração porventura bater, vá pra longe, tire férias, converse com o seu psicanalista, mude de bar, disfarce o máximo que você puder. Um mero gesto, um curto olhar de paixão e você põe tudo a perder. E se a pessoa perceber? Não vale a pena sofrer porque está tudo bem. A vida é bela, as pessoas são interessantes, amanhã vai pintar o maior sol, e você tem plena liberdade para não amar a hora que você quiser. O importante é viver o momento. Você pode até ser uma pessoa livre. Ninguém vai te amar e colar no teu pé!
Mas todo cuidado, ainda assim, é pouco. Se uma figura começar a te ligar toda semana, se falar palavras de amor fora da cama, se ousar pedir uma fotografia tua! Se tomar café da manhã contigo e como quem não quer nada ir ficando pro almoço... Se disser a roupa que você estava usando no dia em que vocês se conheceram, afaste-se!
Você conhece esse tipo: cheio de amor pra dar, vai querer trancar você a sete chaves, trocar experiências, saber do seu passado, conhecer os seus amigos e entrar pra nossa tribo. Você conhece o roteiro: no próximo capítulo vai querer dormir agarradinho, aposto que vai sonhar com você. Vai começar a achar que você é a pessoa mais interessante do mundo e isso é perigosíssimo. Você me desculpe, mas você não é a pessoa mais interessante do mundo e, mais cedo ou mais tarde, um dos dois vai ter que pagar caro por isso.
Então... antes que te decifrem, devore! Todos vão morrer de inveja de você: uma pessoa superfeliz, que aproveita a vida ao máximo e vive livre e intensamente. Que baratão! Tá decifrado! Pra despedir-se, diga apenas: valeu!

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