Sexo Urbano



Capítulo do Livro
      
    Sexo Urbano é uma anunciação. Parece que o ser humano chegou ao fundo de suas potencialidades. Estamos em plena mutação. Num mundo sem deus nem magia, num mundo que tem como referencial a precariedade de todos os sinais, num mundo entregue a seu próprio fim, tudo é preperação para adventos e milênios, vindas e messias.
    Ler Sexo Urbano é como caminhar entre ruínas de moral, valores e costumes que agonizam. E se desesperar por não poder ver - como num espelho, como num filho - nossa ftura face.
    Seja bem-vindo ao inferno de ser igual a todo mundo.
 

















7
- TÁXI! TÁXI!


Você conhece uma moça que só pega táxi quatro portas para caso de ter que escapar de uma violência; anota a chapa e não sai à noite.
- Táxi!
Pára adiante e espera sem abrir a porta. Entra, diz a direção e ele arranca. Dirige feito um louco como se o tempo estivesse sempre por um fio. De vez em quando ele enxuga a testa suada com uma flanela velha. Seus olhos no retrovisor parecem os de um rato acuado, você pensa sem jamais ter visto um rato acuado. Ultrapassa sinais e encurta caminhos, olhos vidrados, gestos súbitos, atento como um combatente em campo de batalha. Transpira e é uma chaleira, estão engarrafados, o vidro da frente está fechado e a temperatura sobe. Não tem coragem de pedir ao motorista que abra o vidro, quer que a corrida acabe, quer chegar logo ao seu destino.
Ele não tem troco, os outros carros buzinam, você entra num boteco de última categoria e pede um cigarro fraco de filtro branco, espera o troco durante um quarto de século entre mendigos e bêbados, um ou outro olha pra você de alto a baixo como se quisesse assassiná-la.
Paga o táxi e faz a pé um pequeno percurso e um grande esforço físico para andar invisível, descobrir o segredo da invisibilidade: franze as sombrancelhas, abaixa os olhos, morde a boca, curva os ombros, estufa a barriga e arrasta o pé.
Chega em casa morta de cansada. Quando morrer quer reencarnar num homem gordo, branco, alto e forte só pra sentir o gostinho de andar pelas ruas assim.


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